Secretaria Municipal da Saúde · NUPES

O caminho do
paciente respiratório

Protocolo Pulmão Paulistano e Oxigenoterapia Domiciliar Prolongada — o que a UBS precisa saber para não perder o paciente entre a receita e a casa dele.

Treinamento · 30 min Equipe multiprofissional São Paulo · 2026
Fonte: Diretrizes do Programa Pulmão Paulistano e de ODP — SMS-SP, 2010 · Portaria 801/2009-SMS.G
Roteiro

Estes são os tópicos de hoje

01Por que o programa existe5 min
02Quem entra: critérios de ODP8 min
03O caminho do paciente e os documentos8 min
04Fontes de oxigênio, manutenção e exclusão5 min
05Caso prático e mensagens finais4 min
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Por que isso importa

Doença respiratória não é caso simples

15,8%

dos adultos acima de 40 anos na região metropolitana têm distúrbio ventilatório obstrutivo na espirometria.

PLATINO · Protocolo DPOC 2023
327

mortes por DPOC por 100 mil homens com 75 anos ou mais na cidade de São Paulo, em 2025.

SIM · PRO-AIM 2025
17,7%

da população da capital tem 60 anos ou mais — o grupo que concentra a doença respiratória crônica.

Censo 2022 · IBGE

O programa existe para transformar esses números em um fluxo que funcione — e a UBS é a primeira peça dele.

Fonte: Boletim CEInfo — Saúde em Dados 2026 (SIM/PRO-AIM, óbitos de 2025); Protocolo de DPOC da SMS-SP, 2023; Censo Demográfico 2022, IBGE.
O que é o programa

Uma portaria de 2009 que organiza a rede

PORTARIA 801/2009-SMS.G

Publicada no Diário Oficial em 6 de maio de 2009, dentro do NUPES.

Antes dela, cada serviço dispensava oxigênio do seu jeito, sem protocolo de indicação nem fluxo administrativo definido.

Integrar ambulatório e hospitalUma linha de cuidado só, para doença respiratória crônica.
Organizar a referência em pneumologiaDefinir quem atende o quê, e como se chega lá.
Racionalizar a dispensação de ODPCritério técnico, fluxo e controle de custo — oxigênio é terapêutica cara.
O ponto

O programa não criou um serviço novo. Criou um caminho entre os que já existiam — e alguém precisou ficar responsável por ele.

Fonte: Diretrizes SMS-SP 2010, item 1 (Introdução) e item 3 (Objetivos).
A linha de cuidado

Três lugares, um paciente

Porta de entrada

UBS

Acolhe, confere documento, cadastra, orienta e agenda. É quem o paciente vê primeiro — e quem ele procura quando algo dá errado em casa.

→
Avaliação especializada

SRDPA

Serviço de Referência em Doença Pulmonar Avançada. O pneumologista confirma a indicação, define a fonte de oxigênio e autoriza.

→
Execução

Empresa + domicílio

Instala o equipamento em até 48 h, orienta a família, visita uma vez por mês e reporta ao SRDPA.

Outra porta Alta hospitalar com oxigênio prescrito: o paciente chega na UBS com a receita na mão — e é aqui que o processo costuma travar.
Lembre

O paciente não “vai para o SRDPA”: ele vai e volta. A UBS continua responsável por ele o tempo inteiro.

Fonte: Diretrizes SMS-SP 2010, item 8 (Fluxo) e item 9 (Atribuições).
O que é ODP

Não é alívio de sintoma. É terapêutica.

Oxigenoterapia domiciliar prolongada é o uso contínuo de oxigênio, no mínimo 15 horas por dia, por quem tem hipoxemia crônica documentada — e aumenta a sobrevida em doença pulmonar avançada.

Duração
≥ 15 h/dia

Contínuo, não sob demanda. Menos que isso não é ODP.

Prova
Gasometria

Em repouso, em ar ambiente, durante doença estável.

Quem decide a fonte
SRDPA

Só o pneumologista do serviço de referência prescreve ou troca a fonte.

Fonte: Diretrizes SMS-SP 2010, item 4; página “Uso de oxigênio domiciliar”, SMS-SP, atualizada em jul/2024.
01

Quem entra

Dois números decidem. E uma condição clínica evita o erro mais caro do protocolo.

Critérios de indicação

O número que decide

Basta um dos dois
PaO₂ ≤ 55 mmHg
ou
SaO₂ ≤ 88%
OU
Faixa intermediária
PaO₂ 56–59
SaO₂ 89%
+ pelo menos 1 destes 3
Os três achados
  • Edema por insuficiência cardíaca
  • Cor pulmonale
  • Hematócrito ≥ 55%
Atenção

A gasometria que vale é colhida em repouso, em ar ambiente e com a doença estável. Fora dessas três condições, o número não decide nada.

Fonte: Diretrizes SMS-SP 2010, item 4 e 5.1. Critérios reafirmados na página de ODP atualizada em 2024.
A regra de ouro

Prescreveu na crise? Não matricule.

1

Exacerbação

Oxigênio prescrito durante a internação ou na crise aguda.

2

45 a 90 dias

Espere a doença estabilizar e o tratamento farmacológico estar em uso.

3

Nova gasometria

Em repouso, em ar ambiente. Só então se decide a matrícula.

25% a 50% dos pacientes reavaliados após 45–90 dias não precisam mais de oxigênio.

A página de ODP atualizada em 2024 pede gasometria de até 90 dias — ela precisa ser recente e de doença estável.

REGRA PRÁTICA

Gasometria colhida no hospital, durante a crise, não abre processo. Peça outra antes de encaminhar.

Fonte: Diretrizes SMS-SP 2010, item 4; página “Uso de oxigênio domiciliar”, SMS-SP, jul/2024.
Quando a gasometria não é obrigatória

Exceções — e por que elas existem

Crianças e adolescentes
≤ 16 anos

SpO₂ ≤ 92% em ar ambiente basta, segundo o documento de 2010.

Acamados
≤ 90%

Pneumopatas com dificuldade de locomoção: oximetria em ar ambiente e repouso.

Paliativo e exceção
≤ 90%

Doença neuromuscular, SAOS, fase terminal oncológica, ICC avançada, AIDS.

Atenção · divergência entre documentos

A página de 2024 admite SpO₂ ≤ 90% em ar ambiente e repouso para acamados e crianças/adolescentes; o documento de 2010 previa ≤ 92% para crianças e adolescentes até 16 anos. Na dúvida, confirme com o SRDPA antes de orientar a família — e acompanhe a publicação da nova versão das Diretrizes.

Regra de bolso

A oximetria abre a porta só nas exceções. No paciente comum, ela indica a gasometria — e a gasometria decide.

Fonte: Diretrizes SMS-SP 2010, item 5.1.1; página “Uso de oxigênio domiciliar”, SMS-SP, jul/2024.
02

O caminho do paciente

Cinco passos na UBS, quatro na referência, um prazo que não pode furar.

Antes de qualquer coisa

O kit que não pode faltar

Pedido médico de ODP — Anexo III, 2 viasCom doença de base, comorbidades, gasometria e data da última internação.
Gasometria arterial recenteComprovando hipoxemia. A página de 2024 pede até 90 dias.
RG, CPF e Cartão SUS do pacienteCópia. Se não tiver Cartão SUS, a UBS fornece.
Comprovante de endereçoDo local onde o equipamento será instalado.
RG e CPF do responsávelCópia — é ele quem assina o termo e recebe a empresa.
Residir no município de São PauloCritério de inclusão. Mudou de cidade, sai do programa.
A frase que fica

Documento incompleto não é encaminhamento. É devolução — e quem paga o atraso é o paciente.

Fonte: Diretrizes SMS-SP 2010, item 5 e Anexo III; página de ODP, SMS-SP, 2024.
Na UBS · passo a passo

Cinco passos, sete dias

01
Acolher e conferir a documentaçãoSem o kit completo, não avance. Faltou algo? Oriente e reagende.
no ato
02
Preencher a Ficha de Cadastro — Anexo IVEm duas vias: uma fica na UBS, outra segue com os documentos.
no ato
03
Enviar cópia ao SRDPAReferência em Doença Pulmonar Avançada da sua região.
no ato
04
Agendar a consulta com o pneumologistaSomente depois de conferir que a documentação está completa. Oriente a levar os originais.
≤ 7 dias úteis
05
Orientar o paciente e a famíliaO que vai acontecer, quem entra em contato, e o que ele deve avisar a UBS depois.
no ato

Urgência sem condições de esperar consulta: a Supervisão de Saúde ou o médico autorizador inclui o paciente e a consulta no SRDPA é agendada em até 30 dias.

Fonte: Diretrizes SMS-SP 2010, item 8, passos 1 a 3.1.
Do SRDPA para a casa

O que acontece depois do encaminhamento

01
Consulta confirma a indicaçãoO pneumologista define a fonte de oxigênio e emite a autorização — Anexo V.
SRDPA
02
SRDPA aciona a empresa e avisa a UBSO paciente entra no banco de dados de ODP e recebe o número de cadastro.
imediato
03
Empresa visita, instala e orientaRelatório de Implantação em 2 vias e Termo de Responsabilidade assinado.
≤ 48 h
04
Acompanhamento mensalVisita domiciliar, Relatório de Monitoramento e “a contento” para pagamento.
mensal

A fonte só pode ser prescrita ou alterada pelo pneumologista do SRDPA que a indicou — nem a empresa, nem a UBS trocam equipamento.

Oriente a família

O paciente recebe um número de cadastro na empresa de oxigênio. É por ele que a família pede reposição de cilindro, cateter e umidificador.

Fonte: Diretrizes SMS-SP 2010, item 8, passos 4 a 15.
Fontes de oxigênio

Três fontes, três condições

01 · Preferencial
Concentrador

Fluxos de 5 ou 10 L/min. Consome energia elétrica: avalie a instalação da casa. Renda familiar menor que 3 salários mínimos → CadÚnico com a assistente social antes de prescrever.

02 · Preferencial em fluxo alto
Cilindro

Gás sob pressão, estacionário ou portátil. Preferido quando o fluxo em repouso passa de 4 L/min.

03 · Com restrição
Oxigênio líquido

Só em casa sem degraus ou escadas — é armazenado a −180 °C. A mochila portátil exige válvula poupadora, e muitos pacientes avançados não conseguem usar.

Na prática

Fluxo acima de 4 L/min em repouso muda a escolha. Casa com escada elimina o oxigênio líquido. Sem instalação elétrica adequada, o concentrador não é opção.

Fonte: Diretrizes SMS-SP 2010, item 6 (Fontes de oxigênio).
Manter ou encerrar

Todo ano, tudo de novo

PARA CONTINUAR RECEBENDO
Documento de manutenção — Anexo III, 2 viasPara todos os casos, inclusive as exceções.
Gasometria arterial atualizadaColhida durante doença estável. Exceto nos casos de exceção.
Comparecimento à consulta anualNo SRDPA. Paciente impossibilitado: o familiar comparece.
QUANDO O FORNECIMENTO PARA
Melhora gasométrica
Mudança para fora do município
Documentação de manutenção não entregue
Internação por mais de 30 dias
Falta à consulta anual no SRDPA
Três visitas perdidas + não comparecer à UBS em 7 dias
O que isso ensina

A maioria das exclusões nasce de falha de comunicação, não de decisão clínica. A UBS é quem pode evitar.

Fonte: Diretrizes SMS-SP 2010, itens 5.2 (manutenção) e 5.3 (exclusão).
Quem faz o quê

Ninguém resolve sozinho

SMS
Diretrizes, financiamento, contrato com a empresa, treinamento das equipes e integração ambulatório–hospital.
Coordenadoria
Pagamento do fornecedor, supervisão regional e ligação formal entre UBS e SRDPA.
Supervisão
Supervisiona as ações da UBS e organiza referência e contrarreferência com SRDPA e hospitais.
UBS
Acolher, cadastrar, orientar, conferir documentos, encaminhar e agendar, fazer visita domiciliar de monitoramento.
SRDPA
Atender, confirmar indicação, autorizar fonte, acionar a empresa e emitir o “a contento”.
Usuário
Entregar documentos, assinar o termo e avisar a UBS sobre internação, alta, mudança de endereço, viagem ou óbito.
Regra

Se não é sua atribuição, não é seu problema resolver sozinho. É seu problema escalar.

Fonte: Diretrizes SMS-SP 2010, item 9 (Atribuições).
O que trava o processo

Seis erros que devolvem o paciente

Prescrever durante a exacerbação
Reavaliar em 45–90 dias, com doença estável.
Encaminhar com documentação incompleta
Conferir o kit antes de agendar. Falta? Orienta e reagenda.
Pedir gasometria sem orientar repouso e ar ambiente
Exame fora de condição invalida o critério.
Achar que a oximetria sozinha prescreve ODP
Ela triagem; só vale isolada nas exceções.
Não avisar a UBS quando o paciente interna ou muda de endereço
Isso gera visita perdida e exclusão.
Não explicar a reposição de cilindro e cateter
Orientar sobre o cadastro na empresa de oxigênio e os contatos.
Fonte: Síntese das Diretrizes SMS-SP 2010 (itens 4, 5, 8 e 9) e da página de ODP de 2024.
Caso prático · 30 segundos

Dona Maria, 68 anos

DPOC grave, tabagista há 40 anos. Teve alta hospitalar há 5 dias por exacerbação. Saiu com prescrição de oxigênio contínuo e chega à UBS com o relatório e a gasometria colhida durante a internação.

Pode matricular hoje?
PERGUNTA 1

Esta gasometria serve para matrícula?

PERGUNTA 2

Se não serve, o que o paciente leva para casa hoje?

Gasometria · na internação
pH7,38
PaCO₂52 mmHg
PaO₂52 mmHg
SaO₂87%
Condiçãoexacerbação
Caso fictício, construído sobre os critérios das Diretrizes SMS-SP 2010.
Discuta com o colega ao lado · 30 segundos
Resolução

O número estava certo. O momento, não.

O QUE FAZER
Não matricular com exame de exacerbaçãoPaO₂ 52 mmHg é critério — mas colhido em doença instável.
Se há urgência, autorizar provisoriamenteCom prescrição médica, até a avaliação no SRDPA.
Garantir a consulta e a nova gasometriaReavaliação entre 45 e 90 dias, em repouso e ar ambiente.
POR QUE ISSO IMPORTA

Entre 25% e 50% dos pacientes não precisam mais de oxigênio depois de estabilizar. Matricular agora pode significar um concentrador na sala de uma pessoa que não precisa dele — e um custo que sai da mesma verba que atende quem precisa.

O paciente não fica desassistido: ele fica com oxigênio provisório e com consulta marcada. O que não se faz é fechar o diagnóstico na crise.

A frase

Matrícula não é ato de compaixão: é ato de critério. O provisório existe para não deixar ninguém sem oxigênio enquanto o critério se confirma.

Fonte: Diretrizes SMS-SP 2010, itens 4, 5.1 e 8.
Para levar

Cinco coisas que mudam o seu dia

01

Documento incompleto não é encaminhamento. É devolução — e o paciente paga a conta do atraso.

02

Gasometria tem data e contexto. Se foi na crise, não vale para matrícula.

03

Oximetria triagem, gasometria decide. Só a exceção abre a porta sem ela.

04

A UBS é a memória do caso. Internou, mudou de endereço, viajou, morreu: alguém precisa registrar.

05

Prazo é cuidado. Sete dias úteis para agendar, 48 horas para instalar em casa.

A pergunta que resolve metade dos processos: de quando é essa gasometria — e em que condição ela foi colhida?